Futebol não é esporte!

Bobby Fischer morreu e explodiu a discussão aqui na editoria: xadrez é esporte ou não? João Saldanha dizia que, no dia em que xadrez fosse esporte, São Jorge ia sair na coluna de turfe.

Tinha razão, o Saldanha. Xadrez não é esporte.

Nem futebol.

Futebol, como o xadrez, é um jogo. Eventualmente praticado por atletas, mas um jogo. No esporte não existe o logro ao adversário, não existe o virtuosismo, não existe a burla psicológica. No esporte, o imponderável é execrado. O esporte é rendimento, técnica, precisão, o esporte são milímetros e milésimos.

O jogo, não. O jogo é cheio de nuanças implausíveis. O jogo é muito mais cérebro e espírito do que corpo; o esporte é quase só corpo e concentração e quase nada de cérebro. O jogo é mais divertido do que o esporte, porque é mais próximo da vida, que é torta e crespa. O esporte é próximo do ideal, que é reto e liso.

No futebol, um time pode jogar muito melhor do que o outro, pode dominar a partida inteira, pode se comportar com mais correção e "esportividade", e ainda assim ser derrotado. Isso é o antiesporte. O gol é o antiesporte. No esporte, quem tem mais condições é quem tem de vencer. No jogo, pode vencer até quem tem mais sorte. No jogo, as vitórias não se merecem, se conquistam. No esporte, vitória sem merecimento é derrota.

Se o futebol fosse esporte, a vitória não seria dada apenas ao time que marca mais gols. O rendimento teria de ser avaliado por inteiro: pontuação para escanteio, para bola na trave, para passes certos. Campeonatos por pontos corridos, sem decisão. Em resumo, uma chatice.

Portanto, viva o gol, o craque, o gênio, a decisão, o jogo; abaixo a preparação física, a disciplina, os pontos corridos. Abaixo o esporte!

fonte: david coimbra colunista do jornal zero hora.

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